A lógica que coordena as atividades
Agora que as atividades já foram identificadas e contemplam a totalidade do escopo do projeto, o passo seguinte é estabelecer a lógica que as coordena: a sequência das atividades, a ordem em que elas ocorrem e o tipo de dependência que existe entre elas. Essa sequência lógica recebe o nome de precedência.
O passo precisa ser bem executado porque o produto final — o cronograma, com as datas previstas para cada atividade — é obviamente afetado pela sequência definida. Amarrar uma atividade a outra é uma das operações mais relevantes do planejamento. De nada vale uma EAP criteriosa e detalhada, nem o melhor programa de computador, se o planejador não definir uma sequência executiva lógica, plausível e exequível.
Predecessoras e sucessoras
Com a lista de todas as atividades preparada, passa-se a determinar a relação entre elas, isto é, a amarrá-las umas às outras. Embora várias atividades possam ocorrer concomitantemente, as relações de interdependência formam cadeias que, no aspecto visual global, produzem uma malha de atividades.
A moldagem do concreto pressupõe a montagem das fôrmas e a colocação da armação; a pintura de uma parede exige que a aplicação de massa tenha sido concluída; e a atividade "tomar café" não pode ocorrer antes nem em paralelo à atividade "comprar café".
Predecessora
Na montagem do planejamento, o importante é identificar bem as predecessoras de cada atividade: aquelas cuja conclusão deve necessariamente ocorrer para que a atividade em questão possa começar. Para cada atividade, o planejador identifica e registra de que outras ela depende imediatamente ou diretamente.
O termo imediatamente é importante. Na construção de um prédio, a pintura do 10º andar obviamente não pode acontecer antes da concretagem dos pilares do 4º andar — mas esta não se caracteriza como atividade imediatamente anterior. A aplicação da massa corrida, ao contrário, seria imediatamente anterior.
Outros termos usados para predecessoras: precedentes, antecessoras, antecedentes.
Sucessora
O conceito de sucessora é exatamente o inverso. Uma atividade sucessora de outra é aquela que pode ser iniciada imediatamente após a conclusão desta. Se A é predecessora de B, então B é sucessora de A.
Outros termos usados para sucessoras: sucedentes, subsequentes.
Ter em mente a noção de dependência imediata é fundamental para que não se criem vínculos redundantes na rede. Se B depende de A, e C depende de B, é desnecessário dizer que C depende de A — ao informar que a predecessora imediata é B, a dependência remota com A vem "a reboque".
Ligações redundantes não acrescentam nenhuma informação à rede e ainda geram esforço de computação.
Nem toda atividade tem predecessora. As atividades iniciais de um projeto não têm predecessoras: podem ser iniciadas a partir do instante zero, sem depender da ocorrência anterior de nenhuma outra tarefa.
Nem toda atividade tem sucessora. As atividades finais do projeto não têm sucessoras, pois nada vem em seguida a elas.
Quadro de sequenciação
O quadro de sequenciação é a tabela em que se definem e se registram as atividades e suas relações de interdependência. Tipicamente ele tem três colunas:
Interpretar o quadro de sequenciação de um bloco de fundação
| Código | Atividade | Predecessoras |
|---|---|---|
| A | Locação da fundação | — |
| B | Escavação da fundação | A |
| C | Montagem das fôrmas | B |
| D | Obtenção do aço | — |
| E | Preparação da armação | D |
| F | Colocação da armação | C, E |
| G | Mobilização da betoneira | — |
| H | Concretagem | F, G |
A lógica executiva delineada no quadro revela para qualquer pessoa o mesmo raciocínio:
- A obra é iniciada pela locação da fundação, mas logo de saída também podem ser feitas a obtenção do aço e as providências para mobilização da betoneira;
- locada a estrutura, faz-se a escavação do terreno;
- com a escavação concluída, montam-se as fôrmas no local;
- a preparação da armação (dobragem) depende da aquisição do aço;
- para colocar a armação dentro das fôrmas é necessário que estas tenham sido montadas e as barras, preparadas;
- a concretagem requer a colocação da armação nas fôrmas e que a betoneira tenha sido instalada.
Repare que a atividade H (concretagem) não tem C (montagem das fôrmas) como predecessora, porque C não é sua antecessora imediata — C ficou implícita em F, esta sim uma das predecessoras imediatas de H. Pode-se dizer que C "veio a reboque" de F.
Raciocinar por sucessoras
Há quem prefira fazer o planejamento raciocinando em termos de sucessoras. Nesse caso, o quadro é ajustado para incluir a coluna Sucessoras. A lógica permanece a mesma; muda apenas a forma de veicular a informação.
O mesmo bloco de fundação, agora por sucessoras
| Código | Atividade | Sucessoras |
|---|---|---|
| A | Locação da fundação | B |
| B | Escavação da fundação | C |
| C | Montagem das fôrmas | F |
| D | Obtenção do aço | E |
| E | Preparação da armação | F |
| F | Colocação da armação | H |
| G | Mobilização da betoneira | H |
| H | Concretagem | — |
A experiência tem mostrado que raciocinar em termos de predecessoras é mais intuitivo. É mais prático perguntar "de quem esta atividade depende?" do que "quem depende desta atividade?" — ou "para quem esta atividade abre caminho?" —, que é a indagação de quem prefere raciocinar por sucessoras.
Cabe a cada um escolher a maneira que melhor lhe convier. Os programas de computador permitem informar e visualizar tanto predecessoras quanto sucessoras.
É muito comum, principalmente em planejamentos com grande quantidade de atividades, que algumas fiquem sem predecessora e sem sucessora — o que não faz sentido: elas ficam "boiando" no cronograma. Acredite: isso acontece muito!
O planejador deve sempre checar se as atividades sem sucessora realmente são atividades finais, e se aquelas sem predecessora são realmente atividades iniciais.
Para definir a precedência, vamos rememorar o esquema do desvio do rio Alegria para a construção da barragem.
Para que o maciço da barragem possa ser construído de um lado ao outro do rio, ou seja, de uma ombreira à outra, é preciso desviar o rio de seu curso natural, o que é feito por meio de um túnel localizado na ombreira. Enquanto o túnel é escavado, o rio continua correndo normalmente em seu leito. Concluído o túnel, começa-se a construir a ensecadeira de montante por meio de um aterro de ponta, que avança gradualmente de uma margem para a outra. À medida que a ensecadeira é feita, o rio é empurrado para o túnel. A ensecadeira de jusante é feita para evitar que a água que sai do túnel volte leito acima. Com as duas ensecadeiras prontas, um grande volume de água fica represado entre elas, precisando ser bombeado para que se inicie a escavação do terreno até a cota de implantação da fundação da barragem.
No estudo da obra, a construtora decidiu fazer um acesso principal até o emboque do túnel e de lá um ramal até o local da ensecadeira de montante. Para a ensecadeira de jusante, o acesso se dá por outro lugar, sem qualquer relação com os outros acessos.
Com essas premissas, o quadro de sequenciação é:
| Código | Atividade | Predecessoras |
|---|---|---|
| Acessos | ||
| A | Acesso ao túnel | — |
| B | Acesso até a ensecadeira de montante | A |
| C | Acesso até a ensecadeira de jusante | — |
| Túnel | ||
| D | Emboque do túnel | A |
| E | Escavação do túnel | D |
| Ensecadeiras | ||
| F | Construção da ensecadeira de montante | B, E |
| G | Construção da ensecadeira de jusante | C |
| Fundação da barragem | ||
| H | Esgotamento | F, G |
| I | Escavação para fundação da barragem | H |
Este exemplo será continuado nos capítulos seguintes. As durações de cada atividade estão no Capítulo 6.
Circularidade
Quando se trabalha com redes de muitas atividades, às vezes o planejador se perde e termina criando por descuido o que se chama de circularidade ou circuito.
É o caso de a atividade A ser predecessora de B, que é predecessora de C, que por sua vez figura como predecessora de A:
A circularidade — também chamada pelo termo inglês loop — é ilógica e precisa ser eliminada. Os programas de computador mais usuais detectam a circularidade e dão aviso de erro.
Um hospital tem um anexo que será demolido para dar lugar a uma nova ala. Como no anexo funciona a cozinha do hospital, o arquiteto da reforma recomendou que se criasse uma cozinha provisória no prédio existente, até que a ala ficasse pronta e nela pudesse ser instalada a nova cozinha.
No entanto, um fator só percebido durante a elaboração da precedência foi que o local previsto para a subestação da nova ala é exatamente onde seria instalada a cozinha provisória. Fica uma espécie de "cachorro correndo atrás do próprio rabo". O problema foi detectado a tempo e o arquiteto pôde fazer um novo arranjo.
O circuito é este: para mudar para a nova cozinha é preciso equipá-la; para desmontar a provisória é preciso ter mudado; para construir a subestação é preciso desmontar a provisória — mas a nova ala (e portanto a nova cozinha) só funciona com a subestação pronta. A rede se fecha sobre si mesma e nenhuma das atividades consegue começar.
Dependência mandatória
A dependência entre duas atividades é dita mandatória ou de lógica rígida (hard logic) quando a ligação entre elas é obrigatória. Acontece quando uma atividade necessariamente tem de vir antes de outra.
Em uma edificação é impossível fazer o pilar sem a sua sapata — sapata é predecessora obrigatória de pilar. Outros exemplos comuns:
- armação → concreto
- chapisco → alvenaria
- assentamento de tubo → reaterro de vala
Geralmente as dependências mandatórias são inerentes à natureza do trabalho, por se tratar da impossibilidade física de uma coisa ocorrer sem que a anterior tenha sido executada. Mas há outras duas famílias:
Contratuais — basta pensar no caso em que uma área só pode ser liberada para o construtor depois de desapropriada.
Externas — envolvem relacionamento entre atividades do projeto e atividades que não são do projeto. A montagem de uma válvula redutora de pressão em uma rede de abastecimento depende do fornecimento do equipamento por um fornecedor externo; a limpeza do terreno depende da emissão da licença ambiental pelo órgão competente.
Dependência preferencial
O outro tipo de dependência é a preferencial, também conhecida como arbitrada, discricionária ou de lógica fina (soft logic). É criada por conveniência da equipe executora, em função do plano de ataque da obra.
Essa dependência não é obrigatória: o vínculo entre as duas atividades é definido, mas existem outras sequências aceitáveis.
Na construção de um edifício, a alvenaria do 2º pavimento não depende necessariamente da alvenaria do 1º pavimento — não há restrição de ordem física. É bem possível "pular" o primeiro pavimento e atacar logo o segundo, mas por uma questão de lógica construtiva o planejador pode vincular as duas atividades.
Outros tipos de dependência
Até aqui, sempre consideramos que uma atividade só poderia começar quando a predecessora terminasse — ou seja, que todas as dependências eram do tipo término-início (TI). Esse vínculo impõe que, para B começar, A deverá ter sido totalmente concluída. A ligação TI é a ligação-padrão.
Embora válida para a maioria dos casos, a dependência TI nem sempre reflete o tipo de lógica que se quer imprimir à rede. Um exemplo típico é o vínculo entre concretagem e desfôrma: apesar de aquela ser predecessora desta, a relação precisa guardar uma defasagem, já que não se pode remover as fôrmas antes do período de cura do concreto.
A saída é criar uma defasagem ou retardo — o tempo de espera entre as duas atividades. Na literatura técnica o retardo às vezes é chamado de atraso, mas o termo não é feliz: a atividade não está atrasada, e sim deslocada por razões de lógica executiva.
II — início-início
Outro tipo útil é quando uma atividade não precisa que a predecessora esteja 100% terminada: B pode começar sem que A esteja concluída, havendo uma sobreposição entre elas. É a ligação II (início-início), que também aceita início com defasagem (lead).
Exemplos: instalação hidráulica (A) e instalação elétrica (B) podem ser iniciadas juntas (II); alvenaria (A) e chapisco (B) de um mesmo pavimento — não é preciso que toda a alvenaria do andar tenha terminado para que o chapisco comece, bastando que a alvenaria esteja por alguns dias "na dianteira". Esse tipo de ligação também é chamado de adiantamento ou antecipação, mas são termos imprecisos.
TT — término-término
O terceiro tipo é o TT (término-término): estipula-se que o término de uma atividade está vinculado ao término de sua predecessora, ou seja, o fim de B depende do fim de A. Um exemplo é montagem da subestação (A) e aluguel de gerador (B) — o término da montagem decreta o fim da necessidade do gerador alugado.
IT — início-término
O quarto e último tipo é o IT (início-término), muito pouco utilizado. É o caso em que uma atividade só pode terminar quando outra se iniciar: o fim de B depende do início de A. Um exemplo seria partida da subestação e aluguel de gerador — o início da operação da subestação amarra o fim da necessidade do gerador alugado.
Em suma
| Ligação (entre A e B) | Significado |
|---|---|
| TI término-início | A tem de terminar para B poder iniciar. |
| II início-início | A tem de ter iniciado para B poder iniciar. |
| TT término-término | A tem de ter terminado para B poder terminar. |
| IT início-término | A tem de ter iniciado para B poder terminar. |
Dos quatro tipos, o TI é o mais utilizado — é a ligação natural entre duas atividades. Em seguida vem o II. Ligações TT e IT são muito raras e pouco aparecem nos planejamentos corriqueiros.
Existem também defasagens negativas. Exemplo: TI − 2 dias, em que o começo de B acontece 2 dias antes do término de A.
O uso excessivo de ligações II, TT e IT "trava" a rede, por impor muita restrição.
Quanto mais detalhada a EAP, menor a necessidade de usar defasagens — os pacotes de trabalho ficam menores e mais sequenciais entre si (TI). Exemplo: para um pavimento, alvenaria e chapisco são II + n dias; porém, se o planejador desmembrasse a alvenaria em paredes P1, P2 etc., o chapisco seria programado para iniciar depois de uma delas, com vínculo TI e não mais II.
Por influência dos softwares estrangeiros, siglas inglesas também são empregadas:
- TI = FS (finish-start)
- II = SS (start-start)
- IT = SF (start-finish)
- TT = FF (finish-finish)
O método das flechas (ADM) só admite ligações TI. O método dos blocos (PDM) admite todos os tipos de ligação.
ADIANTE NO LIVROO Capítulo 8 monta o diagrama de rede a partir desta precedência, nos dois métodos.
Como definimos precedência aqui
Leitura da nossa equipe
Precedência é decisão de método construtivo, não de software. O quadro de sequenciação é o plano de ataque da obra escrito em forma de dependência — e é por isso que ele não pode nascer sozinho no escritório. A pergunta que resolve 90% dos casos é sempre a mesma: de quem esta atividade depende?
Quando a obra aperta e alguém pede para "acelerar o cronograma", a primeira coisa a fazer é separar dependência mandatória de preferencial. A mandatória é física: não se negocia. A preferencial foi escolha nossa — e escolha pode ser revista, em conjunto com a produção, como na reunião tratada no Capítulo 1.
- Quadro de sequenciação antes do softwareA sequência é definida e validada no papel, com produção e suprimentos. O software recebe a lógica pronta; ele não é o lugar de descobri-la.
- Só predecessora imediataNada de amarrar C em A quando C já depende de B. Ligação redundante não informa nada e polui a rede.
- Cada ligação é classificadaMandatória (física, contratual ou externa) ou preferencial. Sem essa marcação, ninguém sabe depois o que pode ser renegociado para ganhar prazo.
- Defasagem tem justificativaCura de concreto, prazo de entrega, liberação de área. Defasagem sem motivo registrado é gordura escondida no cronograma.
- TI por padrãoII só quando a sobreposição é real e conhecida. TT e IT, praticamente nunca. Rede cheia de ligação exótica trava e ninguém consegue replanejar depois.
- Caça às atividades "boiando"Antes de fechar a rede, listar as atividades sem predecessora e sem sucessora e conferir uma a uma se são mesmo início ou fim de obra.
- Circularidade é sintomaQuando aparece um loop, quase sempre o problema não é a rede: é o projeto ou o canteiro. Investigue a causa antes de simplesmente apagar a ligação.
O que vale para a nossa equipe
Verificação rápida antes de transformar a precedência em rede:
- Existe quadro de sequenciação escrito, com código, atividade e predecessoras.
- A sequência foi validada com quem vai executar, e não montada só pelo planejamento.
- Todas as predecessoras registradas são imediatas — nenhuma ligação redundante.
- Cada ligação está classificada como mandatória ou preferencial.
- As dependências externas (fornecedor, licença, desapropriação) estão na rede, e não na cabeça de alguém.
- Toda defasagem tem motivo técnico registrado.
- As atividades sem predecessora são realmente iniciais; as sem sucessora, realmente finais.
- A rede não acusa circularidade — e, se acusou, a causa foi investigada antes da correção.
Material interno de treinamento, elaborado pela equipe a partir da estrutura do Capítulo 7 de Planejamento e Controle de Obras, de Aldo Dórea Mattos. O texto é redação própria, com comentários e rotinas adaptados à nossa realidade; as figuras foram redesenhadas a partir dos diagramas do autor e o estudo de caso do hospital é adaptado de O'Brien e Plotnik (2005), citado pelo autor. Para o conteúdo completo, consulte a obra.