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Portal / Planejamento e controle / Capítulo 1

MATERIAL INTERNO / EQUIPE DE PLANEJAMENTO E CONTROLE DE OBRAS

CAPÍTULO 1Importância do planejamento

Por que a obra que é planejada custa menos, atrasa menos e desgasta menos gente — e por que, mesmo assim, tanta gente ainda planeja mal.

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ASSUNTOFundamentos de planejamento
PÚBLICOEquipe técnica e de campo
BASEMattos, A. D.
USOTreinamento interno
1.0

Por que planejar

Planejar é decidir antes o que vai ser feito, por quem, com quais recursos e em que ordem. Não é preencher cronograma para cumprir tabela: é reduzir o número de decisões improvisadas que a obra vai exigir depois, quando cada decisão já custa dinheiro e tempo.

O gestor que planeja é obrigado a estudar o projeto, atacar o escopo pedaço por pedaço, estimar durações e enxergar as dependências entre serviços. Esse esforço, feito antes, é o que dá a ele domínio sobre o empreendimento. É por isso que o planejamento é hoje um dos principais indicadores de competência de uma construtora — e não mais um enfeite de escritório.

O que os estudos do setor mostram

O processo de planejamento e controle tem impacto direto no desempenho da produção. Pesquisas feitas no Brasil e no exterior chegam à mesma conclusão, e ela é incômoda: boa parte dos problemas crônicos da construção não vem da falta de tecnologia, e sim da falta de gestão.

Falhas de planejamento e controle estão entre as principais causas da baixa produtividade da construção, das perdas elevadas e da qualidade fraca do que o setor entrega.

CONCLUSÃO RECORRENTE EM ESTUDOS NACIONAIS E INTERNACIONAIS

A leitura prática disso é simples: produtividade baixa, desperdício e retrabalho não são características naturais da obra. São sintomas de um processo de gestão que não antecipou nada.

Há ainda um argumento de sobrevivência empresarial. Planejar sustenta a continuidade da empresa porque dá ao gestor a capacidade de responder rápido e com acerto: acompanhando a evolução do empreendimento, ele percebe cedo o que está saindo do rumo e consegue redirecionar a estratégia enquanto ainda há margem para isso.

Este capítulo cobre quatro coisas: o que a obra ganha quando é planejada, por que mudar cedo é barato e mudar tarde é caro, o que acontece quando o planejamento é fraco e por que, historicamente, ele ainda é fraco em boa parte do setor.

1.1

Benefícios do planejamento

Ao planejar, o gestor adquire alto grau de conhecimento do empreendimento, o que o torna mais eficiente na condução dos trabalhos. Os principais ganhos são estes:

  1. (a)Conhecimento pleno da obra

    Estudar o projeto e montar a rede de atividades obriga a entender como a obra se constrói de fato. Quem planeja deixa de conhecer a obra só pelo contrato e passa a conhecê-la pela sequência executiva.

  2. (b)Detecção de situações desfavoráveis

    Desvios de prazo e de produtividade aparecem cedo, ainda como tendência. Isso dá tempo de agir enquanto a correção é barata, em vez de constatar o atraso quando ele já é irreversível.

  3. (c)Agilidade de decisões

    Com o plano na mão, decidir deixa de depender de opinião. As alternativas podem ser simuladas e comparadas antes de virar ordem de serviço.

  4. (d)Relação com o orçamento

    Prazo e custo andam juntos. Ao ligar o cronograma ao orçamento, é possível avaliar o gasto ao longo do tempo e comparar o realizado com o previsto de forma coerente.

  5. (e)Otimização da alocação de recursos

    O plano mostra picos e vales de mão de obra e equipamento. Com folgas conhecidas, dá para nivelar equipes, adiantar frentes e evitar equipe parada ou equipamento ocioso.

  6. (f)Referência para acompanhamento

    Sem linha de base não existe controle: só existe relato. O plano é o padrão contra o qual o avanço real é medido.

  7. (g)Padronização

    Uniformiza o entendimento de todos sobre o que precisa ser feito. Diminui a dependência do estilo pessoal de cada engenheiro e facilita a rotina gerencial entre obras diferentes.

  8. (h)Referência para metas

    Metas só são justas quando saem de um plano coerente. Programas de produtividade e bonificação precisam de um alvo calculado, não de um número escolhido no chute.

  9. (i)Documentação e rastreabilidade

    Registra decisões, mudanças e ocorrências ao longo da obra. Esse histórico sustenta pleitos, defende a empresa em discussões contratuais e explica o que aconteceu meses depois.

  10. (j)Criação de dados históricos

    Cada obra planejada e controlada alimenta o banco de produtividades e índices da empresa. É o que faz a próxima estimativa nascer melhor que a anterior.

  11. (k)Profissionalismo

    Uma obra planejada transmite organização a cliente, fiscalização e à própria equipe. Postura profissional é percebida — e cobrada — pelo mercado.

Fig. 1.1

Quando mudar ainda é barato

Há um ponto do empreendimento em que uma mudança agrega valor e outro em que a mesma mudança só destrói valor. A diferença entre os dois é tempo. Duas curvas explicam isso: o potencial para agregar valor, que só faz cair ao longo do empreendimento, e o custo da mudança, que só faz subir.

Concepção Desenvolvimento Execução Finalização Grau de oportunidade Tempo Potencial para agregar valor Custo da mudança Oportunidadeconstrutiva Oportunidadedestrutiva
Figura 1.1 — Grau de oportunidade da mudança em função do tempo

Oportunidade construtiva

No início, quase tudo ainda está no papel. Alterar solução, sequência ou método custa pouco mais que uma reunião, e o ganho possível é grande. É aqui que o planejamento tem o melhor retorno — justamente quando parece que a obra "ainda nem começou".

Oportunidade destrutiva

Perto do fim, a mesma mudança encontra serviço executado, material comprado e equipe alocada. Ela vira demolição, retrabalho, aditivo e atraso. O potencial de agregar valor já se esgotou; o que sobra é custo.

É esse gráfico que responde a quem diz que planejar atrasa o começo da obra. Não atrasa: antecipa a discussão para o único momento em que ela ainda é barata. Toda decisão empurrada para frente muda de lado no gráfico.

1.2

A deficiência do planejamento

Se os benefícios são tão claros, por que boa parte das obras ainda chega ao fim com prazo estourado e custo acima do previsto? Porque planejamento deficiente não é ausência de cronograma — é cronograma que ninguém usa.

Os sintomas são conhecidos: o plano é feito no início e nunca mais atualizado; o cronograma da diretoria não é o cronograma do campo; a medição de avanço é feita por percepção; a equipe de produção descobre a programação da semana no dia em que ela começa. Em todos esses casos existe um documento chamado planejamento, mas ele não governa a obra.

O efeito é sempre o mesmo: as decisões voltam a ser tomadas na urgência, o retrabalho aparece, os recursos ficam mal distribuídos e a obra passa a ser conduzida por reação, não por antecipação. E, como mostra a Figura 1.1, decidir por reação significa decidir tarde — do lado caro do gráfico.

1.3

Causas da deficiência

As causas dessa deficiência em planejamento e controle podem ser agrupadas em quatro aspectos, todos arraigados de longa data na cultura do setor:

  1. (a)Planejamento e controle como atividades de um único setor
  2. (b)Descrédito por falta de certeza nos parâmetros
  3. (c)Planejamento excessivamente informal
  4. (d)Mito do tocador de obras

(a)Planejamento e controle como atividades de um único setor

É comum a empresa tratar planejamento como tarefa exclusiva de um departamento, geralmente ligado à sede. O setor emite cronogramas, curvas e relatórios; o restante da organização apenas recebe. O plano vira um produto entregue, não um acordo construído.

O resultado é previsível: quem executa não se sente autor do plano e, portanto, não se sente responsável por ele. Suprimentos, produção, qualidade e segurança seguem cada um com sua própria versão da realidade, e o cronograma passa a competir com a rotina em vez de organizá-la.

Como corrigimos: o plano é elaborado com quem vai executar. Engenheiro de produção, mestre, encarregado e suprimentos participam da definição de sequência, durações e restrições. Planejamento é função de todos; o setor apenas consolida, formaliza e cobra.

(b)Descrédito por falta de certeza nos parâmetros

A incerteza é inerente à construção. Ela vem da variabilidade do produto e das condições locais, da natureza dos processos de produção e da própria falta de domínio das empresas sobre esses processos. Como as premissas podem não se confirmar, muita gente conclui que planejar não adianta.

A conclusão está errada. O planejamento não é uma profecia: é um exercício técnico que estima o impacto das atividades dentro do cenário futuro mais verossímil disponível hoje. À medida que o tempo passa, as incertezas vão sendo incorporadas ao plano por meio de alterações e adaptações, com o uso das produtividades corretas para cada situação real de trabalho.

Um plano que muda não é um plano que falhou. Plano que nunca muda, esse sim, é plano que ninguém está usando.

Como corrigimos: replanejamento é rotina, não exceção. Cada ciclo de atualização registra a produtividade realmente obtida e devolve esse número para a base de dados da empresa. A antiga crença de que desperdício e informalidade são intrínsecos à construção não se sustenta mais.

(c)Planejamento excessivamente informal

Sem um processo formal, o planejamento vira combinação verbal: decide-se na conversa de corredor, programa-se na cabeça do engenheiro e ajusta-se no rádio. Nada é registrado, nada é comparado depois, e cada obra funciona de um jeito.

A informalidade custa caro porque impede a comparação entre o previsto e o realizado. Se a programação não foi escrita, não há como saber se ela foi cumprida — e, sem isso, não há aprendizado nem responsabilização.

Como corrigimos: ciclo fixo e documentado. Programação semanal escrita, distribuída antes do início da semana, medição do que foi concluído e análise das causas do não cumprimento. Mesma rotina, mesmos formatos, em todas as obras.

(d)Mito do tocador de obras

Ainda é comum a supervalorização do "tocador de obras": o engenheiro que decide rápido, apoiado apenas na experiência e na intuição, e para quem planejar é perda de tempo. Como não há planejamento, a obra realmente passa a depender de alguém capaz de apagar incêndios o dia inteiro — e isso reforça o mito. Forma-se um círculo vicioso, em que a falta de planejamento cria a carência justamente desse perfil de profissional.

Como a construção se desenvolveu historicamente com muita informalidade e num ambiente em que o desperdício era tido como aceitável, valorizou-se o "tocador" em detrimento do "gerente". A consequência foi o afastamento do pessoal de campo em relação ao planejamento e ao acompanhamento: virou assunto de escritório.

A comparação internacional é dura. Em países mais desenvolvidos, mestres de obra e encarregados dedicam bem mais tempo do que os colegas brasileiros a analisar a programação e a pensar com antecedência nas ações e providências das semanas seguintes.

Como corrigimos: experiência não é substituída, é usada como entrada do plano. O bom mestre é quem melhor sabe estimar produtividade e antever restrição — desde que sente para pensar a semana antes que ela comece.

A reunião de acompanhamento é onde o plano vira cultura

Ponto de atenção da nossa equipe

O item (d) explica por que a nossa reunião de acompanhamento tem um papel maior do que revisar percentuais. Ela é o instrumento que aproxima o campo do planejamento — e essa aproximação não acontece sozinha. Ela precisa ser ensinada, repetida e cobrada até virar hábito.

Chamamos isso internamente de doutrinar o pessoal de campo: fazer com que mestre, encarregado e líder de frente entendam o plano, discordem dele quando for o caso e saiam da sala tendo assumido a semana como compromisso próprio. Um plano que só o setor de planejamento defende não se sustenta na obra. Todos precisam abraçar o projeto — o cronograma é da obra inteira, não do planejador.

  • Todo mundo que executa participaSe a frente de serviço está na programação, o responsável por ela está na reunião. Ninguém recebe meta por rádio ou por WhatsApp sem ter estado na mesa.
  • Cada um fala da sua frenteQuem apresenta o avanço é quem executou, não o planejador. Isso muda a postura: o campo deixa de ser auditado e passa a prestar contas do que assumiu.
  • Discordar é obrigação, não atritoSe a duração está irreal ou a restrição não foi resolvida, o lugar de dizer isso é ali. Silêncio na reunião vira atraso na semana seguinte.
  • Toda meta não cumprida tem causa registradaFalta de material, projeto, efetivo, retrabalho, clima. Sem a causa, a mesma falha se repete e ninguém aprende nada com ela.
  • A semana seguinte sai da reunião fechadaCom responsável, quantidade e data para cada serviço. A reunião termina com compromissos, não com um resumo do que aconteceu.
  • A linguagem é a do campoQuantidades, frentes e datas. Termos técnicos de planejamento se explicam quando aparecem, sempre. Plano que a equipe não entende, a equipe não cumpre.
1.5

O que vale para a nossa equipe

Fechamento prático do capítulo. Use como verificação rápida em qualquer obra da empresa:

  • O plano da obra foi construído com produção e suprimentos, e não entregue pronto pelo setor de planejamento.
  • As decisões que mais pesam em custo e prazo estão sendo tomadas do lado construtivo da Figura 1.1, e não empurradas para a execução.
  • Existe uma linha de base formal e ela é comparada com o realizado em ciclo fixo.
  • A programação semanal é escrita e chega ao campo antes do início da semana.
  • Toda meta não cumprida tem causa registrada e tratada.
  • As produtividades reais medidas na obra voltam para a base histórica da empresa.
  • Mestres e encarregados participam da reunião de acompanhamento e apresentam suas frentes.
  • O replanejamento acontece por rotina, sem ser tratado como falha de quem planejou.

Material interno de treinamento, elaborado pela equipe a partir da estrutura do Capítulo 1 de Planejamento e Controle de Obras, de Aldo Dórea Mattos. O texto é redação própria, com comentários e práticas adaptados à nossa realidade; a Figura 1.1 foi redesenhada a partir do gráfico do autor. Para o conteúdo original, consulte a obra.