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Portal / Planejamento e controle / Capítulo 4

MATERIAL INTERNO / EQUIPE DE PLANEJAMENTO E CONTROLE DE OBRAS

CAPÍTULO 4Roteiro do planejamento

Seis passos, sempre na mesma ordem. Da reforma de um casarão à usina hidrelétrica, o caminho para montar um cronograma é o mesmo — e este capítulo percorre ele inteiro em uma casa de oito atividades.

ASSUNTOComo se monta um plano
PÚBLICOEquipe técnica e de campo
BASEMattos, A. D.
USOTreinamento interno
4.0

Uma receita de bolo

O planejamento de uma obra segue passos bem definidos. É quase uma receita de bolo: em cada passo coletam-se elementos dos passos anteriores e a eles se agrega algo novo. O trabalho de elaboração progressiva é bastante lógico.

Para fazer a reforma de um casarão ou construir uma usina hidrelétrica — obras com feições completamente distintas quanto a tipo de construção, prazo, quantidade de recursos e complexidade — obedece-se ao mesmo roteiro. Muda a escala, não o método.

Cada passo deste roteiro é aprofundado nos capítulos seguintes da obra de referência. Aqui o objetivo é outro: percorrer o caminho inteiro de uma vez, em um exemplo pequeno, para que a lógica da construção do plano fique visível antes do detalhe técnico.

O exemplo do capítulo: a construção de uma casa simples, com oito atividades. Ela vai nos acompanhar do primeiro ao último passo — da lista de serviços até o cronograma com folgas.
4.1

O roteiro em seis passos

O roteiro do planejamento contém os seguintes passos:

  1. Identificação das atividades

    O que precisa ser feito. Sai da EAP.

  2. Definição das durações

    Quanto tempo cada atividade leva, dados quantidade, produtividade e equipe.

  3. Definição da precedência

    Quem vem antes de quem, segundo a lógica construtiva.

  4. Montagem do diagrama de rede

    A representação gráfica das atividades e suas dependências.

  5. Identificação do caminho crítico

    A sequência que define o prazo total da obra.

  6. Geração do cronograma e cálculo das folgas

    O produto final: o gráfico de Gantt, com a margem de cada atividade.

Repare que o cronograma é o último passo, não o primeiro. Quem começa o planejamento abrindo o software e desenhando barras está pulando cinco etapas — e é por isso que o cronograma sai sem lógica e ninguém consegue defendê-lo depois.

4.1.1

Identificação das atividades

Consiste em identificar as atividades que integrarão o planejamento, ou seja, as que vão compor o cronograma. É uma etapa que exige grande atenção: se algum serviço não for contemplado, o cronograma nasce inadequado e o gerente vai passar a obra às voltas com atrasos.

A maneira mais prática de identificar as atividades é elaborar a Estrutura Analítica do Projeto (EAP): uma estrutura hierárquica, em níveis, que decompõe a totalidade da obra em pacotes de trabalho progressivamente menores. A vantagem da EAP é organizar o desdobramento do trabalho, de modo que o rol de atividades possa ser facilmente checado e corrigido.

Também podem ser usados mapas mentais: uma estrutura em árvore em que cada ramo se subdivide em ramos menores, até que todo o escopo do empreendimento tenha sido identificado.

A EAP em três formatos

A mesma decomposição da nossa casa pode ser apresentada em três configurações — árvore, analítica (ou sintética) e mapa mental. O conteúdo é idêntico; muda a leitura.

CASA FUNDAÇÃO ESTRUTURA ACABAMENTO ESCAVAÇÃO SAPATAS ALVENARIA TELHADO INSTALAÇÕES ESQUADRIAS REVESTI-MENTO PINTURA (a) formato em árvore

(b) formato analítico

CASA
FUNDAÇÃO
ESCAVAÇÃO
SAPATAS
ESTRUTURA
ALVENARIA
TELHADO
INSTALAÇÕES
ACABAMENTO
ESQUADRIAS
REVESTIMENTO
PINTURA

(c) mapa mental

CASA Fundação Estrutura Acabamento Escavação Sapatas Alvenaria Telhado Instalações Esquadrias Revestimento Pintura
Figura 4.2 — Estrutura Analítica do Projeto (EAP) da construção de uma casa: (a) formato em árvore; (b) formato analítico; (c) mapa mental

ADIANTE NO LIVROO Capítulo 5 trata dos tipos de EAP e do grau de decomposição necessário, entre outras particularidades.

4.1.2

Definição das durações

Toda atividade do cronograma precisa ter uma duração associada a ela. Duração é a quantidade de tempo — em horas, dias, semanas ou meses — que a atividade leva para ser executada.

Há tarefas de duração fixa, independentemente dos recursos alocados: cura do concreto, enchimento de um tanque cuja vazão de entrada é fixa. E há tarefas cuja duração depende da quantidade de recursos: uma pintura pode ser feita por 2 pintores em 20 dias ou por 4 pintores em 10 dias — o trabalho total é o mesmo, 40 dias de pintor.

A duração depende, portanto, de três grandezas matematicamente relacionadas entre si: quantidade de serviço, produtividade e quantidade de recursos alocados.

Aplicando na alvenaria da casa

  • Quantidade de alvenaria = 120 m²
  • Produtividade do pedreiro = 1,5 m²/h
  • Jornada de trabalho = 8 h/dia
Duração = 120 m² ÷ 1,5 m²/h = 80 h de trabalho = 80 Hh (homem-hora de pedreiro)

As 80 Hh são o trabalho total. Quantos dias isso vira depende do tamanho da equipe:

Trabalho (Hh)EquipeDuração (horas)Duração (dias)
801 pedreiro8010
802 pedreiros405
803 pedreiros26,663,33
805 pedreiros162

Para a nossa casa optamos por designar 2 pedreiros, o que define a duração da alvenaria em 5 dias.

Por que este passo importa tanto: cabe ao planejador definir a relação prazo/equipe mais conveniente e adotá-la na montagem do cronograma. É ele que amarra as produtividades estabelecidas no orçamento às durações atribuídas no planejamento. A obra passa a contar com uma integração orçamento-planejamento — e não com dois documentos que se contradizem.

Durações das oito atividades

Por simplicidade didática, as demais atividades receberam durações sem maiores detalhamentos:

Quadro 4.1 — Duração das atividades
AtividadeDuração
FUNDAÇÃO
AEscavação1 dia
BSapatas3 dias
ESTRUTURA
CAlvenaria5 dias
DTelhado2 dias
EInstalações9 dias
ACABAMENTO
FEsquadrias1 dia
GRevestimento3 dias
HPintura2 dias

ADIANTE NO LIVROO Capítulo 6 trata das produtividades e índices. O Capítulo 12 aprofunda a abordagem probabilística das durações, que preconiza três durações para cada atividade: a mais provável, a otimista e a pessimista.

4.1.3

Definição da precedência

Consiste na sequenciação das atividades. Precedência é a dependência entre elas — "quem vem antes de quem" — com base na metodologia construtiva da obra. Analisando a particularidade dos serviços e a sequência executiva das operações, o planejador define o inter-relacionamento entre as atividades, criando a espinha dorsal lógica do cronograma.

Para cada atividade são atribuídas suas predecessoras imediatas, isto é, aquelas que são condição necessária para que a atividade em questão possa ser desempenhada. Em regra, uma atividade só pode ser iniciada quando sua predecessora tiver sido concluída — a relação término-início. A precedência é registrada no quadro de sequenciação.

Ponto de equipe: nessa fase é importante que a equipe da obra chegue a um consenso sobre a lógica construtiva — o plano de ataque, o relacionamento entre as atividades, a sequência de serviços mais coerente e exequível — para que o cronograma faça sentido. Precedência definida sozinho, no escritório, é a origem mais comum de cronograma que o campo não consegue cumprir.
Quadro 4.2 — Quadro de sequenciação com predecessoras
AtividadeDuraçãoPredecessora
FUNDAÇÃO
AEscavação1 dia—
BSapatas3 diasEscavação
ESTRUTURA
CAlvenaria5 diasSapatas
DTelhado2 diasAlvenaria
EInstalações9 diasSapatas
ACABAMENTO
FEsquadrias1 diaAlvenaria
GRevestimento3 diasTelhado, instalações
HPintura2 diasEsquadrias, revestimento

ADIANTE NO LIVROO Capítulo 7 aborda outros tipos de dependência (início-início, término-término e início-término, com ou sem defasagem), relações de circularidade e o processo mais adequado para identificar predecessoras.

4.1.4

Montagem do diagrama de rede

Criado o quadro de sequenciação com a lógica da obra e a duração de cada atividade, o passo seguinte é a representação gráfica das atividades e de suas dependências lógicas por meio de um diagrama de rede.

Denomina-se rede o conjunto de atividades amarradas entre si que descrevem inequivocamente a lógica de execução do projeto. O diagrama é a representação dessa rede em forma gráfica, que permite entender o projeto como um fluxo de atividades.

Assim como se representa a instalação elétrica de um prédio por diagramas ou a rede de abastecimento de água por uma malha, qualquer projeto pode ter sua sequência executiva representada dessa forma — a origem está na teoria dos grafos. O diagrama permite visualizar com clareza o inter-relacionamento entre as atividades e serve de matriz para o cálculo do caminho crítico e das folgas pela técnica PERT/CPM. É também a ferramenta típica para análise de alternativas e estudo de simulações, necessidades bastante comuns nas empresas.

Dois métodos, o mesmo resultado

São dois os métodos mais empregados: o das flechas e o dos blocos. Os processos são muito similares, ambos identificam o caminho crítico e indicam a folga de cada atividade. O resultado do planejamento é o mesmo qualquer que seja a técnica — há planejadores que preferem um, e outros que se sentem mais confortáveis com o outro.

  • Método das flechas (ADM, Arrow Diagramming Method): as atividades são representadas por flechas orientadas entre dois eventos, que são pontos de convergência e divergência de atividades. Toda seta parte de um evento e termina em outro, e não pode haver duas atividades com o mesmo par de eventos de começo e de término.
  • Método dos blocos (PDM, Precedence Diagramming Method): as atividades são representadas por blocos ligados entre si por flechas que mostram a relação de dependência.

ADIANTE NO LIVROO Capítulo 8 detalha as técnicas de montagem de redes e as vantagens e desvantagens de cada método.

4.1.5

Identificação do caminho crítico

Feito o diagrama, passa-se à etapa de cálculos na rede, com o objetivo de obter a duração total do projeto.

A sequência de atividades que produz o tempo mais longo é a que define o prazo total. A essas atividades dá-se o nome de atividades críticas, e o caminho que as une constitui o caminho crítico, representado no diagrama por um traço mais forte ou duplo.

Como se depreende da definição, o aumento de uma unidade de tempo em uma atividade crítica é transmitido ao prazo do projeto — motivo pelo qual atividades críticas não devem atrasar. Por outro lado, o ganho de tempo em uma atividade crítica reduz o prazo total. Identificar o caminho crítico e monitorar suas atividades é uma das principais tarefas do planejador e da equipe gestora da obra.

O cálculo pelo método das flechas

Pelo ADM, o prazo é calculado por contas sucessivas. Ao evento inicial atribui-se a data zero. Em seguida, para cada atividade, soma-se sua duração ao tempo do evento que lhe dá origem. Quando chegam duas ou mais flechas a um mesmo evento, prevalece a soma mais alta, pois o evento só estará concluído quando a última das atividades que chegam a ele for concluída.

No exemplo da casa chega apenas uma atividade por evento, com exceção dos eventos onde aportam D e E e onde aportam F e G. Nesses casos impera a soma de maior valor. O prazo total do projeto é, portanto, de 18 dias, e o caminho A-B-E-G-H é o que define esses 18 dias.

0 1 4 9 13 16 18 ABC DFE GH 135 219 32
caminho crítico (A-B-E-G-H) demais atividades evento com a data em dias
Figura 4.4 — Caminho crítico no diagrama de flechas. A letra identifica a atividade; o número abaixo, sua duração.

O mesmo cálculo pelo método dos blocos

Pelo PDM a sistemática é similar, porém as datas são anotadas no próprio bloco da atividade. Como no método das flechas, quando uma atividade tem mais de uma predecessora prevalece a soma mais alta. As atividades críticas são as mesmas.

A101 B314 C549 D2911 G31316 H21618 F1910 E9413 Ativ.Dur.Iníc.Térm.
Figura 4.5 — Caminho crítico no diagrama de blocos. O bloco de referência, à esquerda, mostra a posição de cada informação.

As atividades críticas são: escavação, sapatas, instalações, revestimento e pintura. Note que a alvenaria — a atividade que mais discutimos na definição de durações — não é crítica.

Em resumo

  • O caminho crítico une as atividades críticas.
  • O caminho crítico é o caminho mais longo da rede.
  • Qualquer atraso em uma atividade crítica atrasa o final do projeto.
  • Para o projeto ser antecipado, é preciso reduzir a duração de alguma atividade crítica.
  • O prazo não se reduz por ganho de tempo em atividades não críticas.

ADIANTE NO LIVROO Capítulo 9 trata das propriedades do caminho crítico e das opções para redução de prazo de um projeto.

4.1.6

Geração do cronograma e cálculo das folgas

O produto final do planejamento é o cronograma, representado sob a forma de gráfico de Gantt. Ele é uma ferramenta de gestão importante porque apresenta, de maneira fácil de ler, a posição de cada atividade ao longo do tempo.

Enquanto um atraso em atividade crítica prolonga a duração do projeto, o mesmo não vale para as não críticas: elas têm mais tempo disponível do que sua própria duração. Suas datas de início e fim têm certa flexibilidade, limitada pelas datas de seus eventos iniciais e finais. Em outras palavras, as atividades não críticas conseguem "flutuar" dentro do prazo total disponível. Ao período de que uma atividade pode dispor além de sua duração dá-se o nome de folga.

Na nossa casa, as três atividades não críticas podem deslizar até encostar na sucessora. Analisando F, nota-se que ela pode se deslocar 6 dias até chegar em H, sua sucessora lógica. Procedendo de forma idêntica para D e C, chega-se ao cronograma integrado Gantt-PERT/CPM, com a representação das folgas:

Atividade
Dur.
Folga
123456789101112131415161718
A Escavação
1
0
B Sapatas
3
0
C Alvenaria
5
2
D Telhado
2
2
E Instalações
9
0
F Esquadrias
1
6
G Revestimento
3
0
H Pintura
2
0
atividade crítica atividade não crítica folga
Figuras 4.6 e 4.7 — Cronograma de Gantt integrado ao PERT/CPM, com as folgas das atividades não críticas. Prazo total: 18 dias.
Leia o gráfico assim: a barra escura contínua é o que não pode escorregar. O tracejado é margem de manobra — e é exatamente ali que se busca recurso quando uma frente crítica precisa de gente.

ADIANTE NO LIVROO Capítulo 11 trata das particularidades do cronograma e o Capítulo 10 aborda a importância da folga e seus diversos tipos (total, livre, dependente, independente), além de como calculá-las diretamente a partir do cronograma, sem precisar recorrer ao diagrama, como fizemos neste roteiro.

O roteiro aplicado às nossas obras

Leitura da nossa equipe

O exemplo da casa tem 8 atividades e 18 dias. Uma obra nossa tem centenas de atividades e centenas de dias. O roteiro não muda — muda a escala e o esforço de cada passo. Quando um cronograma nosso não se sustenta, quase sempre é possível apontar em qual dos seis passos ele foi atropelado.

O passo mais negligenciado é o terceiro. Precedência é decisão de método construtivo, não de software: é o plano de ataque da obra escrito em forma de dependência. É por isso que ela precisa sair de um consenso com quem executa — mesma lógica da reunião tratada no Capítulo 1.

  • EAP antes de qualquer barraNenhuma atividade entra no cronograma sem estar em um pacote da EAP. Serviço esquecido na EAP vira aditivo ou atraso lá na frente.
  • Duração se calcula, não se chutaQuantidade ÷ produtividade = trabalho; trabalho ÷ equipe = duração. Se a produtividade usada não é a do orçamento, a divergência tem que ser justificada por escrito.
  • Precedência fechada com o campoA sequência é validada com produção antes de virar rede. Sem consenso sobre a lógica construtiva, o cronograma não faz sentido para quem vai executar.
  • Caminho crítico visível na obraTodo mundo na reunião precisa saber quais são as frentes críticas da semana. Atraso ali é atraso na entrega; atraso fora dali, não necessariamente.
  • Folga é recurso, não gorduraFolga existe para absorver imprevisto e para ceder equipe a uma frente crítica. Folga consumida sem controle é atraso escondido.
  • Acelerar só funciona no caminho críticoReforçar equipe em atividade não crítica não antecipa a obra — só aumenta custo. Antes de mandar gente para a frente, confira em qual caminho ela está.
4.3

O que vale para a nossa equipe

Verificação rápida antes de dar um cronograma por pronto:

  • Existe EAP e toda atividade do cronograma pertence a um pacote dela.
  • Nenhum serviço do escopo contratual ficou de fora da lista de atividades.
  • Cada duração tem origem rastreável: quantidade, produtividade e equipe adotada.
  • As produtividades do cronograma conversam com as do orçamento.
  • A precedência foi validada com a produção, e não montada só no escritório.
  • O caminho crítico está identificado e foi comunicado à equipe da obra.
  • As folgas foram calculadas e são acompanhadas — não apenas exibidas.
  • O cronograma é o resultado dos cinco passos anteriores, e não o ponto de partida.

Material interno de treinamento, elaborado pela equipe a partir da estrutura do Capítulo 4 de Planejamento e Controle de Obras, de Aldo Dórea Mattos. O texto é redação própria, com comentários e rotinas adaptados à nossa realidade; as figuras foram redesenhadas a partir dos diagramas do autor, mantendo os dados do exemplo. Para o conteúdo original, consulte a obra.