Uma receita de bolo
O planejamento de uma obra segue passos bem definidos. É quase uma receita de bolo: em cada passo coletam-se elementos dos passos anteriores e a eles se agrega algo novo. O trabalho de elaboração progressiva é bastante lógico.
Para fazer a reforma de um casarão ou construir uma usina hidrelétrica — obras com feições completamente distintas quanto a tipo de construção, prazo, quantidade de recursos e complexidade — obedece-se ao mesmo roteiro. Muda a escala, não o método.
Cada passo deste roteiro é aprofundado nos capítulos seguintes da obra de referência. Aqui o objetivo é outro: percorrer o caminho inteiro de uma vez, em um exemplo pequeno, para que a lógica da construção do plano fique visível antes do detalhe técnico.
O roteiro em seis passos
O roteiro do planejamento contém os seguintes passos:
- Identificação das atividades
O que precisa ser feito. Sai da EAP.
- Definição das durações
Quanto tempo cada atividade leva, dados quantidade, produtividade e equipe.
- Definição da precedência
Quem vem antes de quem, segundo a lógica construtiva.
- Montagem do diagrama de rede
A representação gráfica das atividades e suas dependências.
- Identificação do caminho crítico
A sequência que define o prazo total da obra.
- Geração do cronograma e cálculo das folgas
O produto final: o gráfico de Gantt, com a margem de cada atividade.
Repare que o cronograma é o último passo, não o primeiro. Quem começa o planejamento abrindo o software e desenhando barras está pulando cinco etapas — e é por isso que o cronograma sai sem lógica e ninguém consegue defendê-lo depois.
Identificação das atividades
Consiste em identificar as atividades que integrarão o planejamento, ou seja, as que vão compor o cronograma. É uma etapa que exige grande atenção: se algum serviço não for contemplado, o cronograma nasce inadequado e o gerente vai passar a obra às voltas com atrasos.
A maneira mais prática de identificar as atividades é elaborar a Estrutura Analítica do Projeto (EAP): uma estrutura hierárquica, em níveis, que decompõe a totalidade da obra em pacotes de trabalho progressivamente menores. A vantagem da EAP é organizar o desdobramento do trabalho, de modo que o rol de atividades possa ser facilmente checado e corrigido.
Também podem ser usados mapas mentais: uma estrutura em árvore em que cada ramo se subdivide em ramos menores, até que todo o escopo do empreendimento tenha sido identificado.
A EAP em três formatos
A mesma decomposição da nossa casa pode ser apresentada em três configurações — árvore, analítica (ou sintética) e mapa mental. O conteúdo é idêntico; muda a leitura.
(b) formato analítico
(c) mapa mental
ADIANTE NO LIVROO Capítulo 5 trata dos tipos de EAP e do grau de decomposição necessário, entre outras particularidades.
Definição das durações
Toda atividade do cronograma precisa ter uma duração associada a ela. Duração é a quantidade de tempo — em horas, dias, semanas ou meses — que a atividade leva para ser executada.
Há tarefas de duração fixa, independentemente dos recursos alocados: cura do concreto, enchimento de um tanque cuja vazão de entrada é fixa. E há tarefas cuja duração depende da quantidade de recursos: uma pintura pode ser feita por 2 pintores em 20 dias ou por 4 pintores em 10 dias — o trabalho total é o mesmo, 40 dias de pintor.
A duração depende, portanto, de três grandezas matematicamente relacionadas entre si: quantidade de serviço, produtividade e quantidade de recursos alocados.
Aplicando na alvenaria da casa
- Quantidade de alvenaria = 120 m²
- Produtividade do pedreiro = 1,5 m²/h
- Jornada de trabalho = 8 h/dia
As 80 Hh são o trabalho total. Quantos dias isso vira depende do tamanho da equipe:
| Trabalho (Hh) | Equipe | Duração (horas) | Duração (dias) |
|---|---|---|---|
| 80 | 1 pedreiro | 80 | 10 |
| 80 | 2 pedreiros | 40 | 5 |
| 80 | 3 pedreiros | 26,66 | 3,33 |
| 80 | 5 pedreiros | 16 | 2 |
Para a nossa casa optamos por designar 2 pedreiros, o que define a duração da alvenaria em 5 dias.
Durações das oito atividades
Por simplicidade didática, as demais atividades receberam durações sem maiores detalhamentos:
| Atividade | Duração | |
|---|---|---|
| FUNDAÇÃO | ||
| A | Escavação | 1 dia |
| B | Sapatas | 3 dias |
| ESTRUTURA | ||
| C | Alvenaria | 5 dias |
| D | Telhado | 2 dias |
| E | Instalações | 9 dias |
| ACABAMENTO | ||
| F | Esquadrias | 1 dia |
| G | Revestimento | 3 dias |
| H | Pintura | 2 dias |
ADIANTE NO LIVROO Capítulo 6 trata das produtividades e índices. O Capítulo 12 aprofunda a abordagem probabilística das durações, que preconiza três durações para cada atividade: a mais provável, a otimista e a pessimista.
Definição da precedência
Consiste na sequenciação das atividades. Precedência é a dependência entre elas — "quem vem antes de quem" — com base na metodologia construtiva da obra. Analisando a particularidade dos serviços e a sequência executiva das operações, o planejador define o inter-relacionamento entre as atividades, criando a espinha dorsal lógica do cronograma.
Para cada atividade são atribuídas suas predecessoras imediatas, isto é, aquelas que são condição necessária para que a atividade em questão possa ser desempenhada. Em regra, uma atividade só pode ser iniciada quando sua predecessora tiver sido concluída — a relação término-início. A precedência é registrada no quadro de sequenciação.
| Atividade | Duração | Predecessora | |
|---|---|---|---|
| FUNDAÇÃO | |||
| A | Escavação | 1 dia | — |
| B | Sapatas | 3 dias | Escavação |
| ESTRUTURA | |||
| C | Alvenaria | 5 dias | Sapatas |
| D | Telhado | 2 dias | Alvenaria |
| E | Instalações | 9 dias | Sapatas |
| ACABAMENTO | |||
| F | Esquadrias | 1 dia | Alvenaria |
| G | Revestimento | 3 dias | Telhado, instalações |
| H | Pintura | 2 dias | Esquadrias, revestimento |
ADIANTE NO LIVROO Capítulo 7 aborda outros tipos de dependência (início-início, término-término e início-término, com ou sem defasagem), relações de circularidade e o processo mais adequado para identificar predecessoras.
Montagem do diagrama de rede
Criado o quadro de sequenciação com a lógica da obra e a duração de cada atividade, o passo seguinte é a representação gráfica das atividades e de suas dependências lógicas por meio de um diagrama de rede.
Denomina-se rede o conjunto de atividades amarradas entre si que descrevem inequivocamente a lógica de execução do projeto. O diagrama é a representação dessa rede em forma gráfica, que permite entender o projeto como um fluxo de atividades.
Assim como se representa a instalação elétrica de um prédio por diagramas ou a rede de abastecimento de água por uma malha, qualquer projeto pode ter sua sequência executiva representada dessa forma — a origem está na teoria dos grafos. O diagrama permite visualizar com clareza o inter-relacionamento entre as atividades e serve de matriz para o cálculo do caminho crítico e das folgas pela técnica PERT/CPM. É também a ferramenta típica para análise de alternativas e estudo de simulações, necessidades bastante comuns nas empresas.
Dois métodos, o mesmo resultado
São dois os métodos mais empregados: o das flechas e o dos blocos. Os processos são muito similares, ambos identificam o caminho crítico e indicam a folga de cada atividade. O resultado do planejamento é o mesmo qualquer que seja a técnica — há planejadores que preferem um, e outros que se sentem mais confortáveis com o outro.
- Método das flechas (ADM, Arrow Diagramming Method): as atividades são representadas por flechas orientadas entre dois eventos, que são pontos de convergência e divergência de atividades. Toda seta parte de um evento e termina em outro, e não pode haver duas atividades com o mesmo par de eventos de começo e de término.
- Método dos blocos (PDM, Precedence Diagramming Method): as atividades são representadas por blocos ligados entre si por flechas que mostram a relação de dependência.
ADIANTE NO LIVROO Capítulo 8 detalha as técnicas de montagem de redes e as vantagens e desvantagens de cada método.
Identificação do caminho crítico
Feito o diagrama, passa-se à etapa de cálculos na rede, com o objetivo de obter a duração total do projeto.
A sequência de atividades que produz o tempo mais longo é a que define o prazo total. A essas atividades dá-se o nome de atividades críticas, e o caminho que as une constitui o caminho crítico, representado no diagrama por um traço mais forte ou duplo.
Como se depreende da definição, o aumento de uma unidade de tempo em uma atividade crítica é transmitido ao prazo do projeto — motivo pelo qual atividades críticas não devem atrasar. Por outro lado, o ganho de tempo em uma atividade crítica reduz o prazo total. Identificar o caminho crítico e monitorar suas atividades é uma das principais tarefas do planejador e da equipe gestora da obra.
O cálculo pelo método das flechas
Pelo ADM, o prazo é calculado por contas sucessivas. Ao evento inicial atribui-se a data zero. Em seguida, para cada atividade, soma-se sua duração ao tempo do evento que lhe dá origem. Quando chegam duas ou mais flechas a um mesmo evento, prevalece a soma mais alta, pois o evento só estará concluído quando a última das atividades que chegam a ele for concluída.
No exemplo da casa chega apenas uma atividade por evento, com exceção dos eventos onde aportam D e E e onde aportam F e G. Nesses casos impera a soma de maior valor. O prazo total do projeto é, portanto, de 18 dias, e o caminho A-B-E-G-H é o que define esses 18 dias.
O mesmo cálculo pelo método dos blocos
Pelo PDM a sistemática é similar, porém as datas são anotadas no próprio bloco da atividade. Como no método das flechas, quando uma atividade tem mais de uma predecessora prevalece a soma mais alta. As atividades críticas são as mesmas.
As atividades críticas são: escavação, sapatas, instalações, revestimento e pintura. Note que a alvenaria — a atividade que mais discutimos na definição de durações — não é crítica.
Em resumo
- O caminho crítico une as atividades críticas.
- O caminho crítico é o caminho mais longo da rede.
- Qualquer atraso em uma atividade crítica atrasa o final do projeto.
- Para o projeto ser antecipado, é preciso reduzir a duração de alguma atividade crítica.
- O prazo não se reduz por ganho de tempo em atividades não críticas.
ADIANTE NO LIVROO Capítulo 9 trata das propriedades do caminho crítico e das opções para redução de prazo de um projeto.
Geração do cronograma e cálculo das folgas
O produto final do planejamento é o cronograma, representado sob a forma de gráfico de Gantt. Ele é uma ferramenta de gestão importante porque apresenta, de maneira fácil de ler, a posição de cada atividade ao longo do tempo.
Enquanto um atraso em atividade crítica prolonga a duração do projeto, o mesmo não vale para as não críticas: elas têm mais tempo disponível do que sua própria duração. Suas datas de início e fim têm certa flexibilidade, limitada pelas datas de seus eventos iniciais e finais. Em outras palavras, as atividades não críticas conseguem "flutuar" dentro do prazo total disponível. Ao período de que uma atividade pode dispor além de sua duração dá-se o nome de folga.
Na nossa casa, as três atividades não críticas podem deslizar até encostar na sucessora. Analisando F, nota-se que ela pode se deslocar 6 dias até chegar em H, sua sucessora lógica. Procedendo de forma idêntica para D e C, chega-se ao cronograma integrado Gantt-PERT/CPM, com a representação das folgas:
ADIANTE NO LIVROO Capítulo 11 trata das particularidades do cronograma e o Capítulo 10 aborda a importância da folga e seus diversos tipos (total, livre, dependente, independente), além de como calculá-las diretamente a partir do cronograma, sem precisar recorrer ao diagrama, como fizemos neste roteiro.
O roteiro aplicado às nossas obras
Leitura da nossa equipe
O exemplo da casa tem 8 atividades e 18 dias. Uma obra nossa tem centenas de atividades e centenas de dias. O roteiro não muda — muda a escala e o esforço de cada passo. Quando um cronograma nosso não se sustenta, quase sempre é possível apontar em qual dos seis passos ele foi atropelado.
O passo mais negligenciado é o terceiro. Precedência é decisão de método construtivo, não de software: é o plano de ataque da obra escrito em forma de dependência. É por isso que ela precisa sair de um consenso com quem executa — mesma lógica da reunião tratada no Capítulo 1.
- EAP antes de qualquer barraNenhuma atividade entra no cronograma sem estar em um pacote da EAP. Serviço esquecido na EAP vira aditivo ou atraso lá na frente.
- Duração se calcula, não se chutaQuantidade ÷ produtividade = trabalho; trabalho ÷ equipe = duração. Se a produtividade usada não é a do orçamento, a divergência tem que ser justificada por escrito.
- Precedência fechada com o campoA sequência é validada com produção antes de virar rede. Sem consenso sobre a lógica construtiva, o cronograma não faz sentido para quem vai executar.
- Caminho crítico visível na obraTodo mundo na reunião precisa saber quais são as frentes críticas da semana. Atraso ali é atraso na entrega; atraso fora dali, não necessariamente.
- Folga é recurso, não gorduraFolga existe para absorver imprevisto e para ceder equipe a uma frente crítica. Folga consumida sem controle é atraso escondido.
- Acelerar só funciona no caminho críticoReforçar equipe em atividade não crítica não antecipa a obra — só aumenta custo. Antes de mandar gente para a frente, confira em qual caminho ela está.
O que vale para a nossa equipe
Verificação rápida antes de dar um cronograma por pronto:
- Existe EAP e toda atividade do cronograma pertence a um pacote dela.
- Nenhum serviço do escopo contratual ficou de fora da lista de atividades.
- Cada duração tem origem rastreável: quantidade, produtividade e equipe adotada.
- As produtividades do cronograma conversam com as do orçamento.
- A precedência foi validada com a produção, e não montada só no escritório.
- O caminho crítico está identificado e foi comunicado à equipe da obra.
- As folgas foram calculadas e são acompanhadas — não apenas exibidas.
- O cronograma é o resultado dos cinco passos anteriores, e não o ponto de partida.
Material interno de treinamento, elaborado pela equipe a partir da estrutura do Capítulo 4 de Planejamento e Controle de Obras, de Aldo Dórea Mattos. O texto é redação própria, com comentários e rotinas adaptados à nossa realidade; as figuras foram redesenhadas a partir dos diagramas do autor, mantendo os dados do exemplo. Para o conteúdo original, consulte a obra.